Herdade da Malhadinha Nova: muito para além do vinho

Quem gosta de vinho certamente que já se cruzou com algum dos vinhos deste projecto. Tornaram-se clássicos do Alentejo. Bem conhecidos. Mas, e o caminho até lá?

A Herdade da Malhadinha Nova nasceu em 1998, quando a família Soares (donos da Garrafeira Soares – líderes na comercialização de bebidas no Algarve) adquiriu uma propriedade praticamente abandonada em Albernoa, no coração do Baixo Alentejo.A Herdade da Malhadinha Nova nasceu em 1998, quando a família Soares (donos da Garrafeira Soares – líderes na comercialização de bebidas no Algarve) adquiriu uma propriedade praticamente abandonada em Albernoa, no coração do Baixo Alentejo.

O que começou como o sonho de recuperar uma herdade esquecida rapidamente se transformou num projeto familiar ambicioso, assente no respeito pela terra, pela autenticidade e pelas tradições alentejanas.

Os primeiros passos passaram pela plantação de cerca de 20 hectares de vinha e pela construção da adega. A partir daí, o projeto foi crescendo de forma orgânica, sempre com uma visão integrada: produção de vinho, recuperação de património, desenvolver a agricultura e a pecuária em modo biológico e criar um destino de enoturismo de referência.

Hoje, a Malhadinha Nova estende-se por centenas de hectares de planície alentejana, preservando montados de azinho, olivais tradicionais, culturas agrícolas e a criação de raças autóctones e do cavalo Puro Sangue Lusitano. Todo o projeto assenta numa filosofia de sustentabilidade, procurando utilizar os recursos naturais de forma responsável e deixar um legado para as gerações futuras.

Confesso que o meu conhecimento da Herdade da Malhadinha Nova assentava sobretudo sobre os seus vinhos. Tinha-os como uma empresa familiar onde os irmãos João e Paulo, acompanhados pelas respetivas esposas Rita e Margaret, deixavam que os desenhos das crianças da família contassem a história de cada vinho através dos seus rótulos.

Sobre o alojamento, admito que apenas tive visibilidade da sua magnitude em 2020, quando a Malhadinha Nova passou a integrar a Relais & Châteaux, uma das mais prestigiadas associações mundiais de hotéis e restaurantes independentes, reforçando o reconhecimento internacional do projeto.

Hoje sei que tudo começou em 2008, com cerca de 10 quartos, no Monte da Peceguina.
Atualmente, fazem também parte da herdade a Casa das Pedras, a Casa do Ancoradouro, a Casa da Ribeira e a Casa das Artes e Ofícios. Cada uma foi concebida com uma identidade própria, inspirada nos elementos naturais e na cultura alentejana, ligadas entre si por caminhos de terra batida e gravilha que se fundem naturalmente na paisagem.
Embora o vinho continue a ser a alma da Malhadinha, a componente hoteleira cresceu de forma notável nos últimos anos, muito por força da visão de Rita Soares.

De realçar também o restaurante, literalmente no edifício da Adega, distinguido desde 2024 com uma Estrela Verde Michelin. Joachim Koerper, o carismático chef do Eleven, acompanha a Malhadinha há vários anos como chef executivo, ajudando a definir a identidade gastronómica da casa. Curiosamente, foi também nesta cozinha que passou Vítor Claro, muito antes de se afirmar como um dos mais interessantes produtores de vinho portugueses.

Ainda assim, a Malhadinha não assenta apenas em grandes nomes. Valoriza-se a estabilidade da equipa. É o caso de Vitalina Santos, que começou por cozinhar para a família antes da abertura do hotel e continua, até hoje, a preservar os sabores da cozinha tradicional alentejana, além de orientar os workshops de culinária da herdade.

Quando jantei no restaurante fui muito bem recebido pelo hotel manager (Bruno Marques), o chef Nuno Serra e a sua equipa e fiz uma viagem por alguns vinhos da herdade com o sommelier Andrii Pokryshko. Mas já lá vamos.

 

A minha experiência

Foi a convite da Herdade da Malhadinha Nova que fui conhecer este projeto mais de perto. A experiência começou muito antes do check-in. Ao longo do dia houve sempre contacto por parte da equipa para acompanhar a nossa chegada e, quando finalmente entrámos na Malhadinha, fomos recebidos com uma hospitalidade difícil de descrever. Sei que faz parte da experiência que pretendem proporcionar, mas faz-nos sentir verdadeiramente bem-vindos.

Depois do check-in, seguiu-se uma curta viagem até à Casa do Ancoradouro, localizada no ponto mais alto da herdade, onde ficaríamos alojados.

Na suite esperava-nos uma selecção de fruta da herdade, produtos locais e um Monte da Peceguina Rosé. O impressionante pé-direito e os cerca de 100 m² fazem o resto. A banheira junto à cama e a música ambiente criam um espaço pensado para abrandar o ritmo e simplesmente aproveitar o momento.


 A Casa do Ancoradouro é composta por 7 suites com cerca de 100 m² e terraço. A sua arquitetura e decoração vai buscar inspiração à terra. O pavimento em terracota, criado pelo mestre de Beringel, nasceu da própria argila dos solos da Malhadinha, tornando a casa uma verdadeira extensão da terra onde foi construída.

Nos espaços comuns encontrámos uma sala de jogos, ginásio e cinema no piso inferior. Ao nível das suites temos a área comum que se prolonga até à cozinha onde são servidos pequenos almoços e almoços. Lá fora, as mesas e a piscina aquecida. E ali percebemos que a verdadeira piscina infinita não é a de água, mas a paisagem que se estende até perder de vista.

  


O Jantar

Marcámos o jantar para as 20:30.
À chegada optamos pelo espaço interior (por termos um bebé connosco), apesar do espaço exterior estar bastante convidativo numa daquelas noites de Verão.
A cozinha do restaurante privilegia os produtos da própria herdade e dos produtores locais, respeitando a sazonalidade e a identidade alentejana, sem deixar de incorporar uma abordagem contemporânea. Durante a nossa visita, a cozinha esteve entregue ao Chef Nuno Serra e à sua equipa, enquanto a harmonização e o serviço de vinhos foram conduzidos pelo sommelier Andrii Pokryshko.


O Chef veio à mesa e fez as delícias do meu miúdo com um menu à medida da sua irreverência. Haha Quanto ao sommelier, Andrii, foi incrível partilhar esta experiência de uma forma tão próxima e descontraída com ele. Tive a sorte de terem várias garrafas abertas para outra ocasião, o que me proporcionou uma noite com vários vinhos a copo. Trocamos muitas impressões sobre os vinhos, a região e os desafios do vinho durante toda a noite. Agradeço o apreço.

Após um amuse bouche (cortesia do chef) e o habitual couvert composto por pão alentejano, manteiga dos Açores com flor de sal de vinho tinto, presunto pata negra DOP e queijo de serpa, escolhemos as seguintes entradas:

- Lombo e barriga de atum rabilho (Carpaccio de atum, cannelloni de rabanete da nossa horta, vinagrete de poejo e tomate picante e crocante de algas da Ria Formosa)

- Do Mar ao Montado, em Escabeche (Camarão da nossa costa, pluma de porco preto confitada em escabeche, pata negra DOP crocante e caviar limão)





Para acompanhar, o Andrii serviu-nos dois vinhos. O Viosinho da Malhadinha Vinha do Olival 2024 e o Arinto da Malhadinha Vinha de Terges 2023.

Julgo que o Viosinho combinou bem com o primeiro prato, por ser um vinho ligeiramente mais gordo que o Arinto, criando uma sensação de umami com a barriga de atum. Preferi o Arinto para o prato em escabeche. O camarão e, principalmente, a crocância da pluma de porco preto ligou bem com a acidez vincada do Arinto.


Seguiram-se dois pratos principais:

- Polvo grelhado no josper, massada “gentile” com açafrão, chouriço e pimentos confitados

- Rabo de boi alentejano estufado lentamente em molho de vinho tinto da malhadinha, couve e puré de batata aveludado

 

Para acompanhar o polvo, foram servidos o Malhadinha Branco 2021 e o Marias da Malhadinha Vinhas Velhas 2022. Foi aqui que começaram as maiores surpresas da noite.

Quem me acompanha há algum tempo sabe que tenho uma clara preferência por brancos de perfil atlântico, onde a acidez, a tensão e a leveza costumam falar mais alto (Salnés, Vinhos Verdes, Bairrada, Colares ou Bucelas). Talvez por isso tenha ficado tão surpreendido com estes dois grandes brancos alentejanos, que acabaram por estar entre os momentos altos da prova.

O Marias da Malhadinha revelou-se mais complexo, profundo e sério. Já o Malhadinha Branco 2021 mostrou uma enorme precisão e uma frescura que me faz acreditar que ainda tem um longo caminho pela frente. Dois brancos que me deixaram verdadeiramente impressionado.

Com o rabo de boi chegaram três tintos: Syrah da Malhadinha 2023, Aragonez da Malhadinha 2019 e Tinta Miúda da Malhadinha 2021.

Foi este último que mais me conquistou.

Foge ao perfil mais clássico dos tintos alentejanos. Tem um lado vegetal e terroso muito interessante, tanino presente, fruta sumarenta e uma energia pouco habitual na região. É um vinho de carácter, intenso, mas com uma boca surpreendentemente ágil. Parece-me ainda um pouco irrequieto (daqueles vinhos que beneficiam claramente de tempo em garrafa ou, pelo menos, de algum tempo de decantação) mas, de entre os 3 vinhos apresentados, naquele contexto, foi o que mais me encheu as medidas.

Naquela pausa que antecedeu a sobremesa chegaram-me à mesa pelas mãos do Andrii um Herdade da Malhadinha Branco 2017 e um Verdelho da Malhadinha 2011. Ambos a mostrarem que os brancos do Alentejo também sabem envelhecer nobremente (e nem precisam de custar uma fortuna). Duas grandes provas, com muito jovialidade e terciários muito ténues, apenas a aportarem alguma complexidade e corpo. A isto é que eu chamo “brincar no parque”.

É isto que procuro quando visito um produtor também. Aferir a capacidade de envelhecimento dos seus vinhos.

Curiosamente, o restaurante da Herdade da Malhadinha Nova guarda um pequeno tesouro na sua garrafeira, mantendo algumas colheitas antigas disponíveis exclusivamente para quem se senta à sua mesa.

Acabámos a refeição com o “Ovo” da Malhadinha Nova (mousse de arroz doce, esfera de doce de ovos e maracujá, penas de chocolate branco e ninho de massa kadaif) e o Mel da Herdade (cremoso de mel da Malhadinha, pão de ló, azeite bio da herdade, gel de eucalipto, pinhão fumado em eucalipto e gelado de mel). Este último criação de Cintia Koerper.

As sobremesas voltaram a elevar a fasquia e, a par das entradas, acabaram por ser os momentos mais memoráveis da refeição. Os pratos principais, embora irrepreensíveis na execução, seguem uma linha mais clássica e menos arrojada.

 

O jantar terminou em conversa com o Andrii, a revisitar alguns dos vinhos servidos ao longo da noite. Para quem gosta de vinho, estes momentos valem muitas vezes tanto como o próprio jantar.

Todas as informações e menus podem ser encontradas aqui:
https://www.malhadinhanova.pt/pt/hotel/restaurante/

 

Manhã seguinte

Vimos as estrelas da cama na noite anterior. Dormimos de cortinas abertas.
Acordei quase que por acaso, com o Sol prestes a nascer. Não me fiz de rogado. Fui lá fora, ao terraço. Sentir o Alentejo na alvorada. Os pássaros dançavam ao fundo na paisagem. Cantavam.

Deu-me vontade de me vestir e caminhar até ao meio da vinha para ver o Sol nascer. Assim foi.

A calmaria daquele lugar fez-me abrandar. O tempo não passa mais devagar, mas há sítios que nos fazem acreditar que sim. Na espuma dos dias, vivemos sempre a correr. Ali, por breves instantes, pareceu-me que tudo tinha voltado ao ritmo certo.




Como ficámos na Casa do Ancoradouro, o pequeno almoço deu-se por lá, em frente à piscina. Não imaginava outro local.

O pequeno-almoço foi servido à mesa, num verdadeiro banquete onde não faltavam panquecas, ovos Benedict, fruta fresca, pão alentejano, compotas caseiras e uma seleção de produtos locais.

A cozinha, totalmente aberta e organizada em torno de uma ilha, permite acompanhar a preparação de cada pedido. Há uma proximidade pouco comum que faz desaparecer a formalidade e nos dá, acima de tudo, uma sensação de casa.




Terminada a manhã à mesa, chegou o momento de cada um seguir o seu ritmo. A família ficou a desfrutar da casa e da piscina. Eu fiz o que provavelmente qualquer enófilo faria: fui conhecer a adega e participar na visita guiada com prova de quatro vinhos:

https://www.malhadinhanova.pt/pt/experiencias/visitas-e-provas-de-vinhos/


Um casal que me acompanhou na prova acabou por prosseguir para um piquenique na vinha.

Na verdade há várias atividades que podem ser previamente agendadas. Desde passeios a cavalo ou de charrete pelas vinhas, piqueniques, workshops de cozinha, programas de bem-estar no spa e até experiências desenhadas para famílias, há sempre uma forma diferente de viver a Malhadinha.

Todas as atividades aqui:
https://www.malhadinhanova.pt/pt/experiencias/pacotes-tematicos/

 

Era, por fim, tempo de voltar.

Independentemente de se visitar pela hotelaria, pela gastronomia ou simplesmente pelos vinhos, torna-se fácil perceber que nada na Malhadinha parece ter surgido por acaso.



Herdade da Malhadinha Nova

Herdade da Malhadinha Nova
7800-601 Albernoa, Beja, Portugal

 Hotel: +351 284 965 432 Chamada para rede fixa nacional

 Adega: +351 284 965 210 Chamada para rede fixa nacional

 reservas@malhadinhanova.pt

Site: www.malhadinhanova.pt

Google Maps: https://maps.app.goo.gl/4ry3F5CpZExbxCb5A



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